Acordei morna
Ensebada
Uma ladeira de azeite
Uma estrada gordurosa
Acordei de sonhos maus
De ruínas e fantasmas
Acordei sem o sentido
Sem a alegria na alma
Vou fazer uma careta
Um esgar a ver-me no espelho
Vou fingir-me borboleta
Colibri ou mariposa
Coelhinho ou gato bravo
Vaca ruminando o feno
Vou fazer por ser quem seja
Por ser peixe ou gato ou cabra
Vou fugir de ser-me eu
Vou viver sem dar-me corda
Fingir-me desacordada
Vou para um monte lá em cima
Vou para o fundo do mar
Vou ficar chamando o sono
Vou dormir sem acordar
Vou fugir
Vou-me deixar
Vou-me vestir outra pele
Vou-me encher com outro nome
Vou vender a alma ao demo
Vou vou vou
Por aí ao deus dará
Pelos caminhos do mundo
Tudo menos este azeite
Este óleo muito quente
Esta dor que se derrama
Pelos quadriz e pelos olhos
Pela boca
Pela raiz dos cabelos
Uma dor que rasga e fere
Que se abate na garganta
Como mão que se contrai
Como tesoura cortando
Como se fora uma foice
Rapando seara loura
Do mindinho ao olho esquerdo
Passando pelo umbigo
Esfacelando-me a cintura
Remoendo-se pelas tripas
Uma dor que me acordou
Que se acorda em eu dormindo
Que nem dorme
Nem se aparta
Que se inventa e faz bonita
Dor amarga que rebenta
Como fel, como cicuta
Vai matando dia a dia
Os meus sonhos de menina
do meu quintal
Há 3 dias

4 comentários:
ah, fatima... qdo eu crescer quero escrever assim como vc... que coisa linda esses versos... como é que alguem pode fazer beleza a partir da dor, dos sonhos mortos? mágica, menina, mágica... sinto-me mera aprendiz desse feitiço!
beijão!
leio e re leio para comentar
apenas
belíssimo
.
um beijo
Expectacularmente bem escrito e muito dorido.
Beijos
Palavras-corpo a sentir.
Belo.
Bj.
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