terça-feira, fevereiro 09, 2016

amendoeiras tristes





Amendoeiras tristes.
Algum dia viste?
Eu nunca tinha tido este encontro
mas hoje todas as amendoeiras estavam em pranto.
Um soluço contínuo,
baços os rosas e os brancos.
Seria dos meus olhos...
Talvez fosse...
Mas eu hoje só vi amendoeiras chorando.





escrito no FB em 7.2.2016 com as fotos daqui 

terça-feira, janeiro 12, 2016

eternidade





Mesmo que colocasses os bolsos repletos de pedras
mesmo depois,
ainda diriam: ela respira
e nem notariam que eram peixinhos doirados que te andavam a passear por baixo do vestido

E tu ririas aquele sorriso apatetado 
(o teu sorriso,se ficavas medrosa ou se ficavas tímida)

Se enchesses os bolsos, ainda assim virias à tona
um braço a segurar o outro, num abraço e,
no regaço,
as pedras todas bem seguras.


Ao lado, a boiar, estaria o teu corpo.

















Pormenor do Ofélia de Millais

segunda-feira, julho 20, 2015

eu acho...

Tanto mais o tempo vai decorrendo,
tanto mais certas coisas me comicham,
me desinstalam.
Se deixo, até me incomodam.
E, a exemplo, lembro
a conversinha mole das boas pessoas.
Delicadas,
simpáticas,
plenas, tantas delas, de atributos,
usam com mestria um trem completo de diminutivos.
Uma agonia.
Entram-me sob as unhas como agulhas,
entrosam-se-me nos poros como pó de palha.
Ponha aqui a sua mãozinha.
Quer azulinha? ou prefere amarelinha?
Gosta tostadinha?
E manteguinha, quer?
O livrinho, gostou?
Um tormento, esse, de ir à sapataria e a empregada,
delicada,
amorosa:
magoa-lhe o  pézinho?!
e eu a ver os meus dedões saídos para fora da sandália...

Mas o que me faz mesmo urticária
aquilo que até se me dá em mal de peito,
é o jeito todo apurado de alguns personagens
peremptórios,
imbatíveis no seu:
eu acho...
o abre-te sésamo que esgrimem em conversas infindáveis
e argumentam
e contradizem.

Tanto mais o tempo vai decorrendo
tanto mais
tanto…

domingo, junho 21, 2015

solstício

percorri o google em entradas várias
andei  até buscando em dicionário e livro de ciência
horas a tentar as gastei eu
encontrar algo mais que raios de luz, e rotações, e eixos

perdi meu tempo e disso me desgosto
solstício é tão só uma questão de ângulo
nada mais que inclinação e o caminho rectilíneo que a luz sempre segue

nem deuses nem seres de Olimpos variados
nenhuma transcendência associada ao fenómeno
apenas o planeta rolando meio de esguelha e
poesia, essa, nem lampejo


o poema foi feito ali no FB sem mais intenções do que comemorar o evento
e no entanto parece que saiu coisa de jeito a avaliar pelos comentários e pelo post que a Betty Vidigal fez no mural dela e aqui deixo:
"Compartilho este poema da Maria de Fátima Santos pq é mto bom -- e um exemplo de poesia em versos livres.
Há tanto pseudo-poema circulando por aí, escrito por would be poets, q vale a pena dividir um legítimo....
Um poema tem de transmitir sensação de estranhamento.
Versos livres não são meros fragmentos de texto objetivo em prosa; são versos em si, cada um deles.
As palavras devem surpreender; devem soar de forma inesperada, e no entanto soar perfeitas ali onde estão. 
E se o pensamento em si for original, melhor ainda.
Neste poema, cada dupla de palavras é imprevisível. Não se trata de pensamentos sensatos expostos em pedacinhos, partidos em linhas (se fosse isso, não seria poesia, seria artigo).
Pegar um texto em prosa, com pensamentos edificantes e construtivos, escritos de forma poética, e dividir suas frases em muitas linhas não transforma esse texto em poema. Por mais bacanas q sejam os pensamentos! (é o q fazem com textos em prosa de vários escritores famosos q jamais publicaram versos. Pegam coisas da Clarice, dividem.... Crônicas de Caio F., idem. E tb crônicas do poeta Drummond, q se quisesse q aquilo fosse um poema teria escrito um poema, cáspita! não uma crônica para outros quebrarem em linhas.)
Escrever um conteúdo objetivo e sensato, com o qual todas as pessoas de bem concordam, já de cara dividido em diversas linhas não transforma as reflexões ou a opinião em poema. Escrever uma notícia em versos pode ter um resultado magnífico, mas se isso se limitar a contar o fato, sem firula, não é poema. Por mais comovente que seja o conteúdo.
Sinto dizer q poesia tem firula, sim, ou não existe.
Tanto poesia escrita como sentida. Sem firula não é, não há, não tem.
Até mesmo João Cabral, q se pretendia seco e frio, enchia seus versos de estranhamento em cada linha, em cada estrofe.
E sempre ritmadamente.
Faltou falar em ritmo. Sem ritmo, não é poesia. Necas de pitibiribas, lhufas de piripitombas.
A Fátima é portuguesa, por isso a grafia diferente da nossa, em algumas palavras."

quarta-feira, abril 15, 2015

mea culpa





Não temos lugar juntos no futuro

Talvez o digamos, assim, de colega ou conhecido
Ou do vizinho de cima ou do lado, da frente ou de baixo
Raramente, diremos de um amigo
Menos ainda de quem nos é de sangue
E nem falo em primo ou tio
E nem falo em irmão
Nem falo de pai ou mãe
É de filho que digo
Eu que nem em santo nem nos deuses acredito

Não temos lugar juntos no futuro

Não temos, não
Apesar dos genes
Apesar do leite que me subiu aos seios e lhe foi alimento
Apesar de o ter aninhado nos braços
Tê-lo cuidado

Não temos lugar juntos no futuro

Que eu julguei que eram de amor cada um dos meus gestos
e terão sido apenas ilusões
Apenas gestos que compunham
Nada mais que gestos a condizer
Que eu não terei sabido
(não soube, decerto)
Não terei sabido dar mais que o leite que me subia intenso e farto
Descurei de olhá-lo, a ele
Mesmo, a ele
E terei faltado com o amor que lhe era necessário

Não temos lugar juntos no futuro

Deixei que ele me fugisse pelos poros
Por cada um dos interstícios do meu corpo
Perdi-o
Dores mais dolorosas que as que tive para o trazer a este mundo

Não temos, não, lugar juntos no futuro




sexta-feira, março 14, 2014

hoje que já foi dia doze e eu não disse

as saudades são largas como avenidas 
mas estreitinhas como ruas de bairro 
do lado onde estou 
do lado onde me faltas
as saudade são brancas 
como o branco das casas que encandeia 
nas ruas da saudade sobram os silêncios
palavras que já dissemos 
palavras que ensurdecem de caladas 
nas ruas largas das saudades 
nessas ruas
não existe senão o que esperamos 
ruas que se estreitam do lado em que me encontro 
do lado em que me faltas

quinta-feira, janeiro 02, 2014

minha terra bem amada

            


a gente nem percebe o quanto por ali há de paraíso
o quanto o céu desceu nesse recanto e se esqueceu de tanto
a gente nem olha com olhar de quem ora
nem murmura preces
agradecimentos
e no entanto
é ali o paraíso
é nos céus dos deuses que vivemos
(ou lá perto)
os grandes horizontes
a luz
(essa luminosidade que leva as gentes a quererem ser deuses)
a
paz que se respira e nos envolve
o silêncio
a simplicidade do que é imenso e ainda assim tão doce

a gente nem percebe o quanto por aqui há de paraíso
o quanto o céu desceu neste recanto e se esqueceu de tanto