Quarta-feira, Setembro 16, 2009

a dor




De repente uma dor intensa
De uma costela a outra
Trespassada de nada
E a dor gritando: mata
E ela sem saber
Ela sem saber se risse
E não chorava, que chorar doía

Uma dor danada
E o sol a brilhar lá fora

Uma dor azeda colada à coluna
Zanzando no pescoço
Uma faca a trespassá-la
De uma aba a outra
Uma dor do caraças
E ela nem gritava socorro
Pasmada daquele estar do corpo

Ele a dizer: olha-me
Presta atenção ao que tenho dentro

Morta de repente – disseram
Morreu dizendo que esquisito
Ser assim que se acaba
E a dor intensa, enorme
Nem se esbateu, nem se foi embora
Não morreu com ela
Matou-a, simplesmente






Terça-feira, Agosto 25, 2009

viagens




Eu gostava de ter um barco
Que rumasse a norte
Um barco e um mapa

Eu gostava de ser comandante
De uma frota
Vários barcos e o meu adiante

Andar com bandeirinhas
Acenando
“Olá! Como foi o almoço”
E responder-me uma dama
No barco lá ao fundo
“ Vomitei tudo!”

Um barco para andar
De vento em popa
A passar ao largo
Algarismos, cotas, ramais
As letras e os números

Um barco que fosse
De uma a outra costa
Atravessando o mapa
A desfilar na tinta




Sábado, Agosto 08, 2009

ai as nossas dores!




Essa dor não é tua
Pintaram-na num muro
Abres os olhos
E ela tranca-te


Dói-te como dor vivida
Mas essa dor
(Garanto)
Não é uma dor tua


Inspira
Um fôlego intenso
E depois
Expira levemente
Descai -te num sorriso

Olha
O muro ficou liso
Eu disse
A dor não era tua
Vive

Segunda-feira, Julho 13, 2009

se um dia...

Se um dia me sentar
Num tamborete
Numa almofada
Num tapete
O corpo sobre a terra quente
Vermelha
Sem telha que me cubra
Nada mais que a lua
Enorme
Uma lua fugindo para sul
E eu
A dormir um sono
Na terra ainda quente do sol-posto
A lua derramando odores
E eu
Enrolada em tecidos cor da fruta
Doce
Sumo a escorrer-me pelos braços
Peganhento
A deslizar-me pelos seios
Pelo ventre

Se eu um dia me sentar
Como descrevo
Posso deixar-me ir
E deixar dito que
Morri no paraíso

Domingo, Julho 05, 2009

meu acordar

Acordei morna
Ensebada
Uma ladeira de azeite
Uma estrada gordurosa

Acordei de sonhos maus
De ruínas e fantasmas
Acordei sem o sentido
Sem a alegria na alma

Vou fazer uma careta
Um esgar a ver-me no espelho
Vou fingir-me borboleta
Colibri ou mariposa
Coelhinho ou gato bravo
Vaca ruminando o feno

Vou fazer por ser quem seja
Por ser peixe ou gato ou cabra
Vou fugir de ser-me eu
Vou viver sem dar-me corda
Fingir-me desacordada

Vou para um monte lá em cima
Vou para o fundo do mar
Vou ficar chamando o sono
Vou dormir sem acordar

Vou fugir
Vou-me deixar
Vou-me vestir outra pele
Vou-me encher com outro nome
Vou vender a alma ao demo

Vou vou vou
Por aí ao deus dará
Pelos caminhos do mundo
Tudo menos este azeite
Este óleo muito quente
Esta dor que se derrama
Pelos quadriz e pelos olhos
Pela boca
Pela raiz dos cabelos

Uma dor que rasga e fere
Que se abate na garganta
Como mão que se contrai
Como tesoura cortando
Como se fora uma foice
Rapando seara loura

Do mindinho ao olho esquerdo
Passando pelo umbigo
Esfacelando-me a cintura
Remoendo-se pelas tripas
Uma dor que me acordou
Que se acorda em eu dormindo
Que nem dorme
Nem se aparta
Que se inventa e faz bonita
Dor amarga que rebenta
Como fel, como cicuta
Vai matando dia a dia
Os meus sonhos de menina

Sábado, Junho 13, 2009

eu choro-te

e nem me digas
fui em paz e graça
nem me peças: não chores
não me impeças vaidades
soluços gritados
ruidos
eu sou-me animal perdido
eu nem me sou
que eu grito este desespero
esta mágoa de não saber
este despudor de vida
este crescer eu cada minuto
este olhar um sol
um espaço
e onde...
onde?
eu que nada creio
onde?
indago e clamo
e choro
que eu não sei de amor
e nem de morte
que me fico perdida
e tenho medo
perdida em meu negro universo
clamo que me esperes
que me dês sinal
que eu veja esse em redor de luz
que hoje
e sempre
por mais que seja sol
é-me tudo negro
é tudo tão escuro

eu choro-te

Quinta-feira, Junho 11, 2009

que chova

Que a água se desfaça
que o suor rompa de cada poro
que o corpo escorra deslizando
o ventre em tuas mãos

Quero engolir a dor e rir do choro
sufocar dos odores a maresia
salgar dos limos entre as pedras


Ficar ébria de um respirar de leve

Entre teus joelhos, firmes amarras
ficar perdida em sabor de branco sal
confundindo luz e escuridão

Olhar de frente todos os sóis
e mais que ter-te doar-me em ti
solto, livre,companheiro
caminhante de serranias íngremes
pular todas as constelações
em nossos corpos seduzidos, meigos

Voltar devagarzinho nos teus beijos
aplanar a roupa com o riso
deixar correr areia, grão a grão
soltar a gratidão no teu sorriso

Amar-te serena, mão na mão
sorver a chuva no teu rosto
e ficar a olhar, a olhar

A ver-te até ao infinito...

Quero a água da chuva na janela
e entre ela e nós
entre ela e nós, o prazer do corpo