Domingo, Dezembro 18, 2011

odor de mato




A lua brilhava.
Muito lá no alto. Muito redonda. Muito lua cheia.
Nua, a mulher dançava.
Um odor a erva e a mato em cada volta que ela dava.
No muro cor de lua gritavam palavras de sangue.
E aquele odor de mulher nua por debaixo do astro.





Quinta-feira, Dezembro 08, 2011

futurando

Arrastem-se
pelos soalhos.
Deixem escorrer urinas
no chão de igrejas e ministérios
Sovem mantas esburacadas
nos espaços
não mais que lama e buracos.
Sorvam a água que ainda há nas arcas
e comam percevejos em calda de tomate.
Cegos das luzes de morteiros e outras armas,
mascarem-se
de vilões, ou de anjos
nunca de gente.
E movam-se
rente ao que haja de paredes.
Vão tentar viver nos restos do planeta.

Sexta-feira, Novembro 11, 2011

onze do onze de dois mil e onze

Neste ano de dois mil e onze,
acontece uma coisa curiosa.
Coisinha boba,
coincidência sem demais importância.

Já tinha acontecido, neste século,
o quatro, do quatro, de dois mil e quatro 
e o cinco, do cinco, de dois mil e cinco,
e por aí adiante, até  
nove, do nove, de dois mil e nove.

Datas escritas com o mesmo  algarismo.

Mas quatro dias do mesmo ano, assim,
quase repetidos no modo de serem escritos,
isso, só mesmo neste ano de dois mil e onze!
Além do dia de hoje,
dia onze, do onze, de dois mil e onze,
ainda houve o dia um, do um, de dois mil e onze 
e o dia onze, do um, de dois mil e onze 
e mais o dia um, do onze, de dois mil e onze!

Coisa semelhante só  em dois mil e vinte e dois,
de aqui a onze anos, quando teremos
o dia dois, do dois, de dois mil e vinte e dois 
e o dia vinte  e dois, do dois, de dois mil e vinte e dois 

E lá mais para diante, há-de haver
o dia três, do três, de dois mil e trinta e três 
e o quatro, do quatro, de quarenta e quatro
e, se Deus quiser, 
o nove, do nove, de noventa e nove!

Mas no mesmo ano,
quatro dias com data escrita com igual algarismo,
isso, amigos,
só neste em que estamos!







Segunda-feira, Outubro 10, 2011

escrever




eu tenho muito medo das palavras
cada juntar de letras
ditongos,
uma só sílaba
afiada como bico de roseira
dente de ancinho arrebanhando folhas
as palavras unem-se
linhas de escrita semelhando fios de lâminas
receio-as
ensaiam que me degolam
pregadas como vozes
murmuram, choram,
riem desalmados risos pelas entrelinhas
e gritam
sons abafados em águas de poços
assustam-me
ficam-me as páginas repletas de vermelhos
que as palavras sangram
vulvas e tripas e corações
golpes de machado, facas, tiros
simples sangrares de parto ou
donzela desvirginada
ou menstruo
corpos vestidos a rigor
ou nus

as palavras
vagueiam como fantasmas
e são Marílias e Josés e Ritas e Augustos
gentes de muitos nomes que nunca eu vira antes
e eu tenho medo e nem me atrevo
como hoje



adaptado de um escrito de 29/1/09

Segunda-feira, Agosto 01, 2011

defeito inato

Não fornecem em expresso mail a troco de uns tostões
nem mandam pela wook
Que não se vende em lojas, percebeste há muito
tal como sabes que não há modo de obter por medida
nem numa revista
nem nos livros doutos ou nos livros sagrados.
Em pequenina disseram-te que não tinha preço
e tu cuidaste que viria sem esperares
um dia
por uns anos...
Não te ofereceram pelo exame da quarta
esqueceram-se
e nunca te chegou às mãos, nem que fosse um cheirinho,
uma essência que viesse embrulhando o sapatinho
Ano após ano...
E foste aprendendo a imitar-lhe o modo.
Mas em momentos altos, não podes:
desastres, casamentos, funerais,
o laureamento de um colega antigo,
manifestações de júbilo e carinho,
melhor é escusares-te.
Tiveste a certeza do defeito,
a certeza absoluta,
no dia em que pariste.
Daí em diante habituaste-te.
Nem lhe notas a falta
tal a arte com que fazes de conta.

Sábado, Julho 16, 2011

hermafrodita





Receptáculos tensos
dir-se-iam falos,
e no entanto,
aninham-se como seio na mão de quem os colhe.
Mas não leves aos lábios seus sucos alvos.
Diz o povo: ao figo nem a cabra joga o dente.
Abre antes cada um deles com desvelos:
bastam-te dois dedos,
um toque suave,
e o figo expõe-te segredos bem guardados,
restos de cálices,
corolas,
estames e carpelos feitos frutos
aguardam,
virgens, que os tomes.
Suga-os.
Lambe-os .
Sacia - te deles.