quarta-feira, março 21, 2007

o beijo

Hoje só queria um dos beijos que me deste naquele dia.
Era o cerrar de tarde de um Dezembro ameno, assim dizendo que eram de sol os dias e nem uma aragem corria nem mesmo junto ao rio. Nesse cair de tarde de há tantos anos, nem falaste que os olhos que me olhavam tudo diziam e a boca que molhava a minha, não calava nos afagos intensos que fazia.
Passavam os autocarros junto ao banco em que recostávamos nossos corpos cansados do passeio. De mãos tão apertadas e os braços e o corpo todo inteiro enlaçado um no outro que quem de dentro das janelas nos olhava a caminho de casa, no regresso do dia de trabalho, sorria, eu hoje assim o creio.
Ao tempo, em que passávamos de um a outro afago sem que cada um de nós estivesse ali naquele banco, mas noutro firmamento, levitando, não víamos que passavam autocarros, nem que os olhos nos olhavam curiosos, sorrindo ou criticando, também creio.
Hoje, aqui estou sentado. Sozinho, olho o céu que vai rosando ao pôr-do-sol. Repouso a mão direita nas costas do mesmo banco em que me sentei contigo naquele Dezembro.
Recosto-me e a nuca assenta-me na madeira grossa, levemente húmida porque choveu há pouco neste outro Dezembro.
Olho o céu sem nuvens, nem um fiapo delas, e lá no alto percebo uma luz que cintila.
Sei que me estão vendo os que passam, e são muitos a esta hora, mas sei que não se importam, que olham o velho tonto apreciando o nascer das estrelas.
Eu, fico-te mirando, pequenina, lá no alto, piscando-me o olho como sempre fazias, e recebo, bem sobre os lábios, o beijo que pedia já faz dias.

8 comentários:

wind disse...

Escritora, tão londo e tão terno:)))
beijos

wind disse...

*lindo

segurademim disse...

... é doloroso olharmos para trás

Unicus disse...

Ainda que olhar para trás nos traga também boas memórias, ficam inevitavelmente as outras...um texto excelente, como é teu hábito.

Francisco disse...

texto lindíssimo

José Jaime disse...

Lindo texto, como todos que voce escreve.
Abraços

Carlos Davissara disse...

Essa Maria... excepcional essa menina! Linda texto. Parabéns!

REJO MARPA disse...

E quantos bancos hoje esquecidos não sentirão falta de Beijos e Abraços? E quantos olhares passeiam esses mesmos bancos, em olhares perdidos? Olhar para trás é ver com outros olhos... Depois de ler este texto, este olhar para trás foi, é, e será sempre bom, pois quem o escreveu, tudo o que sabe lá meteu... Muito bom! Bem Haja...