terça-feira, junho 05, 2007

desabafo

A gente tem
por baixo das vestes
sob o adereço de cetim e renda
sob um exterior de corte,
um saia e casaco
em uma lã cinzenta,
por debaixo da pele
cheirosa de perfume,
um fígado e dois rins e pulmões e tudo
Intactos e vermelhos
E temos a merda que se desfaz no intestino
E mais o quimo e o quilo
E mais o sangue que escorre entre as pernas
O sangue que sai do nariz em fio
Sangue vermelho que irriga o queixo, os seios,

a barriga e as pernas

Se te enfiar uma coisa pontuda
Um palito, a ponta de uma unha
O sangue escorre
Inunda

Sai de ti o rosado da pele
Paras os batimentos
Acinzentas
Morres


Mais um tempo e ficas putrefacto
Nem os cães te cheiram e só as aves de rapina
debicam as tuas carnes insípidas

Malditos as presunções e os costumes
Malditas frases começadas no primeiro pronome
Malditas as outras que dizem Comigo
E aquelas em que falas Mim

Línguas os lábios para humedecer a palavra
Arrotas escondido
De ti te envergonhas
Dos teus gases
E no entanto és tu esse putrefacto
És muito mais tu do que a palavra que dizes
E ainda muito mais que o que trazes vestido

Mais do que tu
a merda que te anda dentro
alimenta-te vivo
Assegura-te que sejas bailarina
fadista, madrasta, pai, tio e professora
que jogues ao arco e cantes
que desenhes e escrevas e te pintes
que vás por estradas sem destino
ou simplesmente durmas

É de merda que é feita a vida

Mas porra
Façamos perante a nossa merda boa figura
Vamos à retrete e lavemos os dentes
De manhã e à noite

(e não fumem)


5 comentários:

Manuel Bastos disse...

Assumamos: Somos o dejecto de deus. Deus? Que deus? Ah... somos dejecto só!

Arion disse...

Pois...

vida de vidro disse...

Hoje deu-me para vir-te comentar aqui. Para te ler aqui. E, como sempre, lá vai aquele murro no estômago. Ninguém pode ficar indiferente ao que escreves. É (literalmente) visceral. **

efe disse...

essa final do "não fumem" é que estragou o poema. havia de ser uma obra prima da poesia kitschunga, mas o radicalismo primário anti-tabágico elevou-a para outros níveis poéticos. Naa... não há medalha no Dia da Cidade.


(e caracóis, já é sorte)

;P

Vieira Calado disse...

Eu diria que a nossa querida amiga acordou um poucochinhozinho mal humorada...